Samambaia desponta como opção de moradia para a classe média de Brasília
A cidade, que já é a 3ª mais populosa do DF, vê sua renda crescer acima da média, 86% da população pertencem às faixas B e C. Em 2005, eram 57%
Publicação: 27/01/2013 07:03 Atualização: 27/01/2013 08:49
| Da janela de um edifício em construção, outro prédio residencial já finalizado em Samambaia: há 40 empreendimentos em andamento na cidade |
O lugar que nasceu como assentamento e ganhou fama pelos altos índices de criminalidade no Distrito Federal começou a viver uma reviravolta nos últimos anos. A miséria e a violência não desapareceram, mas, sem muito alarde, Samambaia se transforma em uma das regiões administrativas de maior potencial econômico. Com três estações de metrô, comércio pujante e um público consumidor em ascensão, a cidade atraiu investimentos e mudou de perfil.
Criada há 23 anos em uma área 11,5 vezes maior que a do Cruzeiro, Samambaia é a terceira região mais populosa do DF, atrás apenas de Taguatinga e Ceilândia: a população cresceu 4% ao ano desde 2004 e se aproxima dos 200 mil habitantes. Cada vez menos dependentes do Plano Piloto — distante quase 30km —, os moradores não precisam mais sair da cidade para gastar, embora a maior parte dos 3,5 mil estabelecimentos comerciais ainda sejam bares e salões de beleza.
Quem apostou no crescimento de Samambaia comemora a investida. Redes de calçados e fast-food, por exemplo, se instalaram em mais de um ponto da cidade. Na movimentada Primeira Avenida Norte, os terrenos estão quase todos ocupados por lojas, escritórios, home centers, supermercados e cinco agências bancárias. O novo padrão de vida da população tem estimulado maior diversidade e sofisticação dos serviços.
Líder do MST no norte fluminense é assassinado
Rio de Janeiro – Uma liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, Cícero Guedes, foi encontrado morto neste sábado (26), com vários tiros pelo corpo. Segundo o delegado Geraldo Rangel, que investiga o caso, Guedes foi encontrado na Estrada da Flora, pequena via que liga a Usina Cambaíba à BR-356.
O delegado informou à Agência Brasil que ainda não há muitas informações sobre a morte de Cícero Guedes, mas disse que ele foi morto entre a noite de ontem (25) e a madrugada de hoje. “Ainda não temos muitas informações porque é tudo muito preliminar. Ainda estamos esperando algumas provas, laudos periciais e medidas cautelares que requeremos”, disse o delegado.
O delegado informou à Agência Brasil que ainda não há muitas informações sobre a morte de Cícero Guedes, mas disse que ele foi morto entre a noite de ontem (25) e a madrugada de hoje. “Ainda não temos muitas informações porque é tudo muito preliminar. Ainda estamos esperando algumas provas, laudos periciais e medidas cautelares que requeremos”, disse o delegado.
Vinte e oito cães da PM vão às ruas em busca de armas, drogas e explosivosA especialidade deles é identificar drogas, armas e explosivos. Em troca, ganham carinho e reconhecimento da corporação
Publicação: 27/01/2013 09:08 Atualização: 27/01/2013 09:13
| No quartel do BPCães, o cachorro é treinado e torna-se companhia indispensável do trabalho policial nas operações de busca e apreensão |
Em troca de um brinquedo de estimação, eles localizam drogas, explosivos e fazem cara de poucos amigos para proteger seus adestradores. São treinados para atacar quando for necessário, mas, por trás das raças agressivas, os cachorros do Batalhão de Policiamento com Cães (BPCães) são dóceis e se tornam atração por onde passam. Hoje, 53 cães vivem no canil da corporação. Vinte e oito estão preparados para irem às ruas. Os outros ainda passam por treinamento rigoroso e é preciso ter vontade de trabalhar para conseguir se tornar um integrante da equipe.
Eles chegam à Polícia Militar por meio de licitações. A última levou seis novos animais ao quartel. Participaram da seleção dobermanns, pastores-alemães, rottweilers, labradores e staffordshire bull terriers. Só passaram pelas fases de teste os que demonstraram instinto aguçado e vontade de trabalhar. Os preguiçosos não têm vez. “Testamos cachorros, a partir de oito meses, do Brasil inteiro. Os escolhidos são os que têm boa socialização e mais agitação”, conta um dos adestradores, o capitão Renato Cezário Guimarães.
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Os que nascem no Batalhão começam a ser estimulados no primeiro dia de vida. São submetidos a alturas e temperaturas variadas. Para começar a testar o faro, os filhotes são colocados distantes da mãe. A fome faz com que, pelo cheiro, eles voltem para se alimentar. Treinam debaixo de sol ou de chuva, mas, para cada dia de trabalho, ganham um de folga. “Eles ficam prontos para atuar em qualquer situação, afinal, o trabalho da polícia é feito em todas as ocasiões. E quando eles estão preparados, não há barulho ou temperatura que os incomodem ou tirem a atenção deles”, conta o comandante do BPCães, major Petercley Franco.
Polícia prende homem que estuprou garota de 13 anos após transporte pirata
Publicação: 26/01/2013 21:35 Atualização: 26/01/2013 21:47
A polícia prendeu na tarde deste sábado (26/1) Célio Barbosa do Santos, 35 anos, acusado de ter estuprado, por volta de 14h de ontem, uma menina de 13 anos no Paranoá. Segundo a delegada-adjunta Jane Klébia Paixão da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá), Célio disse que foi um momento de fraqueza, "pois o capeta estava tomando conta dele".
Segundo depoimento de Célio, a menina estava na parada de ônibus e ele passou fingindo que fazia transporte alternativo. A garota, então, entrou no carro. No entanto, durante o trajeto, ela percebeu que Célio não parava em outros pontos para pegar mais passageiros. Nesse momento, a adolescente pediu para descer.
A partir daí, Célio desviou o caminho para um campo de futebol da cidade. Ao chegar no local, ele começou a estuprá-la. A garota tentou reagir e mordeu a mão do autor do crime, mas não conseguiu impedi-lo. Ao fim do ato, a adolescente decidiu fingir que estava tudo bem e entregou o telefone dela para Célio.
Emboscada
Neste sábado, Célio ligou para a casa da garota. A mãe atendeu, fingindo ser ela, e marcou um encontro com o estuprador. Assim que desligou, a mãe ligou para a polícia e eles armaram uma emboscada, quando Célio foi preso. Ainda segundo o depoimento, o autor do crime disse que só deixou a menina ir embora, "pois ela era bonitinha".
Segunda a delegada, Célio já molestou uma criança de oito anos. A polícia ainda investiga outro assédio a um adolescente de 12 anos. O criminoso vai responder por estupro de vulnerável e pode pegar de 10 a 15 anos de prisão.
Segundo depoimento de Célio, a menina estava na parada de ônibus e ele passou fingindo que fazia transporte alternativo. A garota, então, entrou no carro. No entanto, durante o trajeto, ela percebeu que Célio não parava em outros pontos para pegar mais passageiros. Nesse momento, a adolescente pediu para descer.
A partir daí, Célio desviou o caminho para um campo de futebol da cidade. Ao chegar no local, ele começou a estuprá-la. A garota tentou reagir e mordeu a mão do autor do crime, mas não conseguiu impedi-lo. Ao fim do ato, a adolescente decidiu fingir que estava tudo bem e entregou o telefone dela para Célio.
Emboscada
Neste sábado, Célio ligou para a casa da garota. A mãe atendeu, fingindo ser ela, e marcou um encontro com o estuprador. Assim que desligou, a mãe ligou para a polícia e eles armaram uma emboscada, quando Célio foi preso. Ainda segundo o depoimento, o autor do crime disse que só deixou a menina ir embora, "pois ela era bonitinha".
Segunda a delegada, Célio já molestou uma criança de oito anos. A polícia ainda investiga outro assédio a um adolescente de 12 anos. O criminoso vai responder por estupro de vulnerável e pode pegar de 10 a 15 anos de prisão.
A revolução da terapia genética
Chega ao mercado o primeiro medicamento capaz de substituir um gene defeituoso por outro saudável. Está inaugurada a era na qual doenças como a Aids e a diabetes poderão ser tratadas simplesmente mudando o DNA
Monique Oliveira
Por muito tempo, falar em terapia genética significava adentrar um terreno de pura experimentação da medicina, algo para beneficiar as gerações futuras. Agora esse futuro deixa de ser remoto. Chegou ao mercado o primeiro medicamento de terapia gênica – um marco na história da medicina. Trata-se do Glybera, uma solução aprovada pela agência europeia que regula remédios para ser comercializada nos países do continente a partir deste ano. A droga é a esperança de uma vida sem sofrimento para milhares de pessoas que possuem uma doença genética rara, caracterizada por um defeito no gene que determina a produção da enzima lipoproteína lipase, responsável pela digestão da gordura. Sem ela, o corpo não metaboliza o nutriente, o que acarreta sérias consequências, como sucessivas internações por pancreatite (inflamação do pâncreas). Até hoje, não havia tratamento a não ser dieta restritiva.
O remédio troca o gene defeituoso por um saudável, corrigindo o problema. É o princípio da terapia gênica. Dito assim, parece um conceito simples. Mas sua concretização sempre foi um desafio. Para concluir o desenvolvimento do Glybera, por exemplo, foram 12 anos de trabalho, realizado pela companhia de biotecnologia holandesa UniQure. Isso porque a substituição do gene defeituoso pelo correto envolve um processo complexo. Primeiro, é preciso achar o que os cientistas chamam de “veículo”, o meio pelo qual o gene saudável será levado até o interior das células para tomar o lugar do que funciona erradamente. Há algum tempo conclui-se que a melhor forma de fazer isso é usar um vírus. A escolha foi feita porque, ao invadir as células, esse micro-organismo mistura seu material genético ao DNA das células e as faz funcionar como uma espécie de fábrica dele próprio. É dessa forma que ele se espalha pelo corpo. Portanto, já que ele atua dessa maneira, por que não utilizá-lo para transportar para dentro do corpo aquilo que se quer de fato? É uma estratégia chamada por muitos de cavalo de troia.
Uma das questões mais complicadas, porém, é fazer com que o vírus misture o gene desejado ao DNA das células, sem causar doenças. Entre os candidatos, um dos mais estudados é o vírus adeno-associado. Ele provoca menos reações do sistema imunológico, é mais fácil de manipular e não causa enfermidades. Foi o tipo escolhido pelos cientistas holandeses. Ainda assim, os pesquisadores utilizaram drogas para evitar a rejeição ao vírus. A terapia, então, se mostrou eficaz. Com 12 injeções aplicadas diretamente em músculos da perna dadas de uma só vez, os 27 pacientes que participaram dos testes – realizados no Canadá e na Holanda – passaram finalmente a fabricar a enzima e continuaram sua produção sem necessidade de novas injeções.
PRODUÇÃO
Pesquisador da companhia holandesa UniQure exibe
o frasco da solução composta de vírus e novos genes
Jörn Aldag, executivo que coordenou o estudo, garante que o tratamento é o fim da doença. “É a cura”, afirmou à ISTOÉ. No mundo científico, a façanha foi comemorada. “Eles não utilizaram uma estratégia nova, mas conseguiram que o gene de interesse fosse entregue ao paciente por um longo período”, afirma o pesquisador Guilherme Baldo, do Centro de Terapia Gênica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. “Mais estudos são necessários, mas a terapia é muito interessante”, diz o cardiologista Raul Santos, consultor do Centro de Medicina Preventiva Einstein e professor da Universidade de São Paulo (USP). “Esperamos a sua utilização no País”, afirma Eliana Cotta de Faria, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Por enquanto, a droga só está disponível na Europa e está sendo submetida à aprovação nos EUA. “Mas é possível realizar o tratamento de brasileiros que desejarem vir à Holanda”, diz Aldag. “É preciso analisar cada caso.” Segundo a empresa holandesa, é cedo para definir o custo da terapia. Há especulações de que o tratamento poderia chegar a custar cerca de 1,5 milhão de euros, o equivalente a quase R$ 3 milhões.
Em um contexto mais amplo, a aprovação do Glybera significa que o mundo já está capacitado a avançar na terapia gênica. “Esse remédio abre uma porteira para esse tipo de tratamento”, comemora Carlos Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo e pesquisador de terapia genética na área do câncer. De fato, a fronteira foi aberta. O próximo remédio da categoria a chegar ao mercado será para o tratamento da Síndrome de Imunodeficiência Combinada, uma doença genética que impede o funcionamento do sistema imunológico. O laboratório GlaxoSmithKline, em parceria com o Instituto MolMed, na Itália, aguarda a liberação das agências reguladoras para vender a droga. Ela está em estudo há mais de 11 anos em centros de excelência, como o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH). “Médicos e pacientes não têm muita opção”, disse à ISTOÉ Dan Kastner, diretor-científico do Instituto Nacional de Pesquisa para o Genoma Humano, um braço do NIH. A instituição já restaurou o sistema imunológico de três crianças com a terapia.
FUTURO
Na Unicamp, a cientista Margareth Ozelo estuda a terapia gênica para tratar a hemofilia
Nos laboratórios, há uma profusão de testes clínicos usando a manipulação genética a nosso favor. Os genes enxertados têm propósitos diferentes. Entre outras funções, podem mandar as células destruir um tumor, corrigir uma mutação, determinar a fabricação de proteínas ou aumentar a capacidade de funcionamento do sistema imunológico. Em um experimento realizado no Instituto Feinstein de Pesquisa Médica de Nova York (EUA), por exemplo, os cientistas injetaram no cérebro de 65 pacientes com doença de Parkinson uma solução contendo um gene que determina a produção de uma proteína cuja ausência pode deflagrar sintomas da enfermidade. Os doentes que receberam a injeção apresentaram melhora de 23% nos sintomas. Já os que receberam placebo, 12%. “A terapia gênica para doenças como Parkinson é uma realidade”, disse à ISTOÉ Andrew Feigin, autor do estudo.
BENEFÍCIO
A canadense Katlyn Demerchant, 7 anos, usou com sucesso uma
forma de terapia genética contra doença que afeta o sistema imunológico
O mesmo panorama é observado em relação à Aids. Na última semana, cientistas da Escola de Medicina de Stanford (EUA) publicaram um artigo no qual relataram que conseguiram modificar geneticamente os linfócitos T (células de defesa invadidas pelo HIV) de modo a torná-los resistentes à entrada do vírus. Por enquanto, os estudos estão em nível bastante preliminar, mas o feito é um passo importantíssimo no combate à doença. Em outra ponta, os cientistas continuam a lutar por uma vacina. Uma pesquisa feita pelo Instituto de Tecnologia de Pasadena mostrou que uma solução contendo genes responsáveis pela produção de anticorpos contra o HIV impediu por completo, em animais, a contaminação pelo vírus. Em humanos, há uma experiência em curso há 11 anos. Em 2012, parte dos resultados foi publicada no renomado Science Translational of Medicine. Os genes associados à produção de anticorpos anti-HIV continuam funcionando. Não há sinal de reação imunológica. A doença, porém, não foi totalmente controlada.
POTENCIAL
O cientista Carlos Menck, da USP, investiga como a genética pode combater o câncer
Outra enfermidade na qual a terapia dos genes poderá salvar vidas é a diabetes. O tratamento objetiva regularizar a produção e aproveitamento da insulina, hormônio que permite a entrada, nas células, da glicose circulante no sangue. Na Faculdade de Medicina de Baylor (EUA), cientistas reverteram a doença em ratos: tanto a diabetes tipo 1, a forma hereditária, quanto a diabetes tipo 2, a adquirida. “Pelo menos em animais, pode-se dizer que é uma cura”, disse à ISTOÉ Lawrence Chan, líder do trabalho.
No Brasil, a Unicamp testará a terapia gênica como tratamento para pacientes com hemofilia B grave, uma doença genética que provoca graves hemorragias pela ausência de Fator IX, responsável pela coagulação do sangue. “Tivemos três pacientes que receberam esse tipo de tratamento e estão bem”, relata Margareth Ozelo, diretora da unidade de hemofilia do hemocentro da universidade. A estratégia é inserir genes vinculados à produção do fator IX.
Também há esperanças no tratamento do câncer. Uma delas reside no combate ao melanoma, a forma mais grave dos cânceres de pele. Cientistas da Universidade de San Diego dotaram o vírus da herpes com instruções genéticas que permitem ao organismo destruir as células tumorais e ter o sistema de defesa fortalecido. Dos 30 pacientes que receberam esse vírus modificado, 26% tiveram resposta positiva ou regressão da doença. Na China, há uma droga aprovada contra o carcinoma (outro tipo de câncer de pele). No Instituto de Ciências Biomédicas da USP, os cientistas estudam possíveis reparos no DNA que podem proteger contra a doença. Outra abordagem é fazer com que a célula doente fique mais sensível aos quimioterápicos.
No campo da cardiologia, as experiências são igualmente diversas. Aqui, as estratégias vão desde usar a terapia genética para combater o acúmulo de gordura nas artérias até o controle da pressão arterial. Na mais recente delas, pesquisadores da Escola de Medicina de Monte Sinai (EUA) testaram uma droga para tratar e prevenir a insuficiência cardíaca. A equipe descobriu que a proteína SUMO1 fica diminuída nesses pacientes. Eles injetaram, em animais, um gene capaz de regular a produção dessa substância. A função cardíaca melhorou significativamente. Também está em estudo uma vacina com genes capazes de levar o sistema imunológico a atacar as placas de gordura oxidadas nas artérias, problema que pode levar ao infarto. No Instituto do Coração, de São Paulo, o professor José Eduardo Krieger também estuda o potencial da terapia. “Em animais, tivemos resultados positivos com proteção cardíaca pós-infarto.”
Apesar do sucesso desses recursos, algumas ponderações são necessárias. Hoje, permanece a existência de limites técnicos para a produção em larga escala dos vírus modificados geneticamente, os tais veículos. Isso ainda encarece brutalmente o tratamento. Também ainda se buscam formas de assegurar que os genes inseridos funcionem adequadamente e não induzam à formação de problemas, como tumores. Porém, a contar pelos desafios já enfrentados pela terapia, é de esperar que os obstáculos fiquem cada vez mais para trás.
Do glamour a ocupação dos sem-teto
Como vivem as famílias que invadiram o hotel othon palace, de são Paulo, Símbolo do luxo nas décadas de 50 a 70
Rachel Costa
Conheça, em vídeo, em que condições algumas pessoas vivem no hotel:
INOVAÇÃO
O Chalet Suísse tornou-se famoso por ser o primeiro
restaurante de hotel a oferecer vista panorâmica da cidade
Na torre art déco de 25 andares, que um dia já foi hotel de luxo, o banho tomado no balde contrasta com o mármore travertino que reveste o banheiro. Aposentada de um lado, a banheira de porcelana branca se transformou em reservatório de água, que precisa ser carregada escada acima para garantir o abastecimento dos quartos. Foram-se as camas de madeira maciça, os colchões macios e os lençóis finos, agora substituídos pelos colchões infláveis, invariavelmente azul-marinho, que abundam pelas habitações. Também abandonou o endereço o Chalet Suisse, restaurante de luxo especializado em fondues que funcionava no deslumbrante terraço. Dele, só restou a vista para o Vale do Anhangabaú. A comida agora é feita bem longe dali, no térreo, em um cubículo de pouco mais de três por quatro metros, onde se espremem dona Fátima, a cozinheira, suas ajudantes, um fogão, algumas panelas industriais, uma geladeira e um freezer. Uma refeição custa R$ 2, preço bem diferente dos R$ 50 dos últimos fondues servidos pelo Chalet Suisse antes de fechar. Desde que ganhou uma nova função, em 26 de outubro passado, acabou-se a mordomia no Othon Palace de São Paulo. Outrora habituado a chefes de Estado, como a rainha Elizabeth II (que lá se hospedou em 1968) e famosos de passagem pela cidade, os corredores do ex-hotel de luxo agora se acostumam ao movimento ruidoso de seus novos hóspedes. São numerosas famílias, movidas pela esperança de encontrar um lugar definitivo para morar. Ao contrário dos antigos hóspedes, que após a estadia voltavam para suas casas, os que hoje ocupam os quartos do ex-hotel não têm para onde ir. São sem teto.
“A gente não está invadindo, está reivindicando. A gente não quer ficar aqui, quer ter um lugar nosso”, diz Aline Dias Eubank, 25 anos, atual moradora do quarto 814. A jovem sul-mato-grossense já teve casa em Campo Grande, mas a família vendeu a propriedade para pagar o tratamento quando ela adoeceu de uma síndrome rara, aos 14 anos. Moraram na zona leste da capital paulista em um pequeno apartamento alugado até outubro, quando a dona pediu o imóvel e Aline, a mãe e a irmã ficaram sem ter aonde ir. O dinheiro que tinham era pouco para cobrir um contrato novo. Decidiram, então, se juntar à Federação Pró-Moradia do Brasil, movimento que organiza a ocupação do hotel. A escolha do Othon Palace não se deu pelo conforto, mas sim por estar vazio desde 2008, com dívidas de IPTU e bem próximo à prefeitura, o que expõe aos olhos do poder público o problema de moradia. Basta cruzar a rua Líbero Badaró para se chegar à atual sede do governo municipal, o edifício Matarazzo. Quando o hotel foi inaugurado, em 1954, durante as comemorações do quarto centenário da cidade, a atual prefeitura abrigava a administração da maior corporação brasileira à época, as Indústrias Reunidas F. Matarazzo. Mais alguns metros de caminhada sobre o Viaduto do Chá e se encontra o Teatro Municipal. “O Othon era um empreendimento para apresentar São Paulo como um grande centro econômico sul-americano”, afirma Caio Calfat, vice-presidente de assuntos turístico-imobiliários do Sindicato da Habitação de São Paulo e estudioso da hotelaria paulista. “Por isso a localização.”
RENOVAÇÃO
O hall acarpetado dos andares (acima) virou campo de futebol para as
brincadeiras das crianças. Abaixo, o espaço onde funcionou o restaurante
Até a década de 70, ali estavam o coração financeiro da cidade, as damas da sociedade e os senhores de paletó. Com o passar do tempo, eles migraram para outras avenidas. Primeiro, para a Paulista, depois para a Faria Lima e, finalmente, para as margens do rio Pinheiros, na Berrini. À região central, assim como ao hotel, restou a ruína – a rede Othon atualmente possui 15 hotéis no Brasil e quatro no mundo. “Há pelo menos 53 prédios abandonados no centro que poderiam virar moradia popular”, diz o secretário executivo do Centro Gaspar Garcia de Diretos Humanos, Luís Kohara. O número citado pelo pesquisador vem do próprio poder público municipal, que divulgou em 2008 um estudo no qual apontava 53 endereços que podiam ser adaptados para projetos habitacionais. Gente para ocupar esses imóveis não falta. O déficit habitacional paulistano é de cerca de 300 mil casas, número praticamente igual ao de domicílios vazios – 290 mil, de acordo com o Censo 2010. Seria fácil fechar essa conta, mas a desapropriação dos 53 prédios não saiu do papel.
Em todo o centro, estima Kohara, há outras 30 ocupações. Duas delas, também em antigos hotéis paulistanos, o Lord e o Cambridge, cujas histórias se misturam à do próprio Othon. Na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab chegou-se a elaborar um projeto para transformar o Othon em um apêndice da prefeitura, com secretarias municipais. Com a posse de Fernando Haddad, porém, essa destinação não é mais garantida. O que alimenta esperanças de gente como o auxiliar de limpeza Cleiton Pereira, 32 anos, morador do 801. Enquanto assiste à novela na televisão no hall de entrada do Othon, ele explica sua situação. Para as oito horas diárias de trabalho, Pereira ganha um salário mínimo e, com o dinheiro, sonha em comprar seu próprio imóvel. Quando tentou, porém, esbarrou na falta de programas de moradia para assalariados. “O que me ofereceram foi entrar para um consórcio e esperar pelo sorteio, mas como é que eu pago consórcio, aluguel, comida, roupas e transporte, tudo isso com um salário mínimo?” Como Pereira, grande parte das famílias que se espalham pelas habitações do ex-hotel de luxo esbarra nesse mesmo problema. Pagar um pouquinho todo mês grande parte pode, mas faltam programas que lhes deem essa possibilidade. “Não tem incorporadoras interessadas em construir para esse público que ganha menos de três salários mínimos” diz Elaine Silva, uma das coordenadoras da ocupação.
ESTRATÉGICO
Ao lado do Edifício Matarazzo e no início do Viaduto do Chá,
o Othon Palace estava localizado bem no centro financeiro da capital
Diante disso, o jeito é improvisar em um hotel abandonado e aguardar alguma decisão da vizinha prefeitura. “É difícil principalmente por não ter água nos quartos”, diz a vendedora Simone Stella, 29 anos, moradora do 1.003. Mãe de Isaac, de cinco meses, a carioca chegada há pouco em São Paulo tem se virado como pode para lavar as roupas do bebê em baldes no banheiro do quarto. Mas não reclama, pois viver no ex-hotel tem lhe permitido dar conta de tudo com o salário de R$ 800 – que, além das despesas da casa, tem de cobrir a creche do filho. Acima de Simone, está o “andar de luxo” da atual estrutura. Não que haja algum tapete valioso ou iluminação mais cara, mas o zelo dos moradores em mantê-lo limpo o diferencia dos demais. “No décimo primeiro a gente tem até uma cozinha própria”, orgulha-se Bruno Vasconcelos, 22 anos, morador do 1.111, que abre a porta fechada à chave de um antigo espaço para uso dos funcionários. Lá dentro, um fogão e uma mesa para os vizinhos de andar.
O piso acarpetado, que hoje serve de campo de futebol para as crianças, era um dos símbolos de ostentação do Othon à época de sua inauguração. “O carpete, os móveis e a qualidade do serviço eram marcas do Othon quando ele foi lançado”, diz Maurício Bernardino, presidente da Federação dos Hotéis do Estado de São Paulo, profundo conhecedor do mercado hoteleiro paulista, no qual trabalha há mais de 50 anos. “Os operadores de turismo estrangeiros mandavam todos para lá. A rede já era muito conhecida lá fora por causa dos estabelecimentos do Rio de Janeiro”. Hoje quem faz o serviço de manutenção são os próprios moradores, que lavam as escadas três vezes por semana e se revezam na portaria, fechada todas as madrugadas das 2h às 4h45. No segundo andar, mora José Humberto da Silva, o Beto, 42 anos, uma espécie de síndico. “Quando chegamos estava tudo muito sujo. Levamos um mês para deixar limpo. Não é fácil dar conta de um bichão desses”, diz Beto, enquanto sonha em conseguir uma casa para chamar de sua, sem a sombra de uma reintegração de posse.
Fotos: Reprodução;Jjoão Castellano/Ag. Istoé; Acervo UH/Folhapress
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