Brasiliense é quem mais gasta com apostas nas loterias em todo o Brasil Tanto empenho, no entanto, traz recompensas: em 2012, foram 70 prêmios para o DF



Em todo o DF, são 296 unidades de apostas da Caixa Econômica Federal: média de R$ 140 por habitante em 2012 (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Em todo o DF, são 296 unidades de apostas da Caixa Econômica Federal: média de R$ 140 por habitante em 2012


A sorte tem andado ao lado dos brasilienses. Também pudera. Em 2012, os moradores do Distrito Federal gastaram, em média, R$ 141 com apostas em loterias da Caixa Econômica Federal (CEF). O maior desembolso do país. Superou o valor investido pelos paulistas no mesmo período, R$ 82,50. E a fezinha nos números rendeu bons resultados no ano passado. Ao todo, 70 prêmios foram sorteados para jogadores da capital federal entre Mega-Sena, Quina, Dupla-Sena, Loteria Federal e Lotofácil.



Proporcionalmente à população, o DF também é a unidade da Federação com o maior número de ganhadores da Mega-Sena. Desde o início dos sorteios, houve um prêmio a cada 116.825 habitantes. São Paulo, que concentra a maior quantidade de sorteados desde o início das operações de loteria no país, aparece em quarto lugar no ranking nacional. Lá, a quantidade é de um vencedor para cada 299.001 pessoas. Até o sorteio de número 1.468, realizado na última quarta-feira, 22 moradores da capital federal enriqueceram graças ao jogo.

Queda de meteorito provocou danos de US$ 30 milhões

Autoridades russas mobilizaram uma equipe de 20.000 pessoas para realizar operações de socorro aos feridos e limpeza das áreas mais danificadas

Mais de 900 pessoas ficaram feridas, três delas com gravidade, depois que um meteorito caiu e se desintegrou sobre a região russa de Tcheliabinsk
As autoridades da região de Chelyabinsk, nos Montes Urais, calculam em mais de 30 milhões de dólares -- equivalente a 58 milhões de reais -- os danos materiais causados pela queda de um meteorito de 10 toneladas nesta sexta-feira na Rússia. A onda de choque provocada pela entrada do corpo celeste na atmosfera balançou prédios, quebrou janelas e deixou mais de mil pessoas feridas -- a maioria delas por estilhaços de vidro.

Leia também:
Asteroide não foi detectado porque estava contra a luz solar
Como defender o planeta da ameaça dos asteroides

"Por volta de 100.000 proprietários de imóveis foram afetados", disse o governador da região, Mikhail Yurevich, em uma entrevista coletiva. O político acrescentou que 30% das janelas danificadas já foram reparadas. Enquanto isso, o Ministério para Situações de Emergência da Rússia enviou uma equipe com 20.000 pessoas para realizar as operações de socorro aos feridos e limpeza das áreas danificadas.

O poder paralelo que abateu o Papa

Sucessão de escândalos, intrigas e disputa de poder levou o pontífice à mais radical das decisões: deixar o trono de Pedro para enfraquecer os traidores

por Débora Crivellaro

“A face da Igreja, às vezes, é desfigurada. Penso em particular nos golpes contra a unidade da Igreja, as divisões no corpo eclesial. Por isso, Jesus denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que deseja aparecer, os hábitos que procuram o aplauso e a aprovação...”
chamada.jpg
A voz é fraca, instrumento de um homem fisicamente pequeno. Deveria sumir no ambiente imponente, construído para lembrar aos mortais a sua insignificância diante dos desígnios divinos. Mas do majestoso altar erigido sobre o local onde está o túmulo do apóstolo Pedro, fundador da Igreja Católica, ecoa uma mensagem retumbante. E com ela, o mirrado orador recupera sua grandeza. Dois dias depois de assombrar o mundo com seu pedido de renúncia, Bento XVI, o pontífice octogenário novamente surpreendia, ao sacramentar, em plena missa de Quarta-Feira de Cinzas, 13 de fevereiro, na monumental Basílica de São Pedro, em Roma, a existência de uma guerra de poder nas fileiras do Vaticano. Seu próprio pontificado seria uma vítima desse bíblico confronto.
Ainda assim, Joseph Ratzinger em nada lembrava o homem pálido, de olhar pesado e cansado dos últimos dias. Suas palavras decididas denunciaram o governo paralelo que insistia em se instalar dentro da Santa Sé. Com a boa condição física que demonstrou durante toda a cerimônia, revelou que a alegação oficial de falta de vigor físico não foi a razão para abdicar ao trono de Pedro. Mais do que um gesto de reconhecimento das suas próprias limitações, a renúncia foi um ato político. Isolado dentro do Vaticano, Bento XVI optou por sair para derrubar, junto com ele, seus traidores e, assim, tentar recompor a instituição. Na última celebração como papa na Basílica, ele mostrou que, às vésperas de despir-se das vestes que o tornam um ser quase divino, um representante de Deus na Terra, é um humano mais forte e lúcido do que se supunha – assim como é humana a vingança que seu gesto pode impor àqueles que o traíram.
PAPA1-2-IE.jpg
PROTESTO
Manifestantes pelas vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes,
em Los Angeles, neste mês: acusações contra a omissão de Bento XVI
peso de sua retórica abalou os pilares do poder paralelo que agia à sua volta e fustigou as dezenas de car­deais presentes à celebração. “Ficamos sem palavras”, declarou o cardeal Giovanni Lajolo, estupefato logo após a cerimônia. Mas, certamente, as fortes declarações do sumo pontífice tiveram um destinatário preferencial: Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano e segundo homem na hierarquia do atual pontificado. Amigo pessoal de Ratzinger, foi um dos religiosos que se tornaram mais poderosos quando o cardeal alemão foi empossado papa, em 2005. Em vez de aliado, o italiano se converteu em líder do processo de esvaziamento de poder que levou à renúncia de Bento XVI, uma possibilidade real para o religioso alemão já há alguns anos, asseguram pessoas próximas a ele, inclusive seu irmão mais velho, Georg.
O pontificado de Ratzinger começou a ruir quando seus assessores diretos passaram a boicotar suas iniciativas. Como seu projeto de “limpeza moral interna”, por exemplo. O alemão chegou ao posto máximo da Igreja Católica com a intenção de promover uma varredura nos casos de abusos sexuais cometidos por religiosos, que vieram à tona às centenas pelo mundo desde o pontificado de João Paulo II. Mas suas decisões de punir os envolvidos com rigidez eram simplesmente ignoradas ou postergadas por anos. Exausto por não conseguir implementar suas iniciativas, o papa chegou a declarar que “havia muita sujeira na Igreja”. À frente do grupo de assessores dissidentes estava o cardeal Bertone. Um dos episódios mais eloquentes do modus operandi de Bertone foi o afastamento do cardeal Carlo Maria Viganò da Cúria Romana. Viganò tentou romper a lei do silêncio imposta por uma verdadeira máfia que desviava verbas, fraudava licitações e tramava complôs contra o pontífice. Em uma carta entregue ao papa em outubro de 2011, ele denunciava o esquema de corrupção no Vaticano. Em represália, foi afastado de Roma e nomeado por Bertone como núncio apostólico nos Estados Unidos. Para evitar o confronto direto, Bento XVI optava por não questionar seu segundo na hierarquia. Até que perdeu o controle da situação.
01.jpg
02.jpg
Se é possível precisar uma data em que o pontífice tomou a decisão extrema de se tornar o primeiro papa renunciante da era moderna – quase um tabu teológico para o 1,2 bilhão de católicos do mundo –, esta seria o dia 17 de dezembro de 2012. Na ocasião, três dos mais antigos cardeais – o espanhol Julián Herranz, o italiano Salvatore De Giorgi e o eslovaco Jozef Tomko – entregaram ao pontífice um novo relatório sobre o escândalo de vazamento de documentos oficiais do Vaticano, conhecido como Vatileaks. Após interrogar cerca de 30 pessoas sobre o caso, a seleta comissão informou ao religioso que havia na Cúria Romana uma grande resistência a mudanças e muitos obstáculos às ações pedidas pelo líder máximo para promover a transparência. Abatido, isolado e muito impressionado com o conteúdo dos relatórios, o alemão – que, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no pontificado de João Paulo II, era conhecido como “rottweiller de Deus” – preferiu deixar o trono do apóstolo Pedro. “O ato do papa foi encorajado pela insensibilidade de uma cúria que, em vez de confortá-lo e apoiá-lo, apareceu, por diversos de seus expoentes, mais empenhada em jogos de poder e lutas fratricidas”, afirmou em editorial o respeitado jornal italiano Corriere della Sera.
Nove meses antes do derradeiro relatório, quando passava férias na sua residência de verão, em Castelgandolfo, os mesmos emissários o haviam visitado em segredo. Então, descortinaram para Ratzinger a intrincada rede de roubo e vazamentos para a imprensa de documentos oficiais do Vaticano, um dos maiores escândalos da história recente da Igreja Católica. O responsável pelo vazamento era identificado como “corvo” – mais tarde soube-se que se tratava de Paolo Gabriele, 46 anos, o mordomo que servia ao papa, próximo a ponto de ser o responsável por vesti-lo em seus aposentos pontifícios. O teor dos documentos lançava suspeitas sobre complôs na Cúria Romana para esconder supostos desvios de recursos e malversação de fundos da Igreja, e tinha como alvo o cardeal Bertone. Bento XVI se via, então, diante de sua via-crúcis pessoal.
03.jpg
Descoberto, Gabriele confessou o crime, foi preso, julgado pela Justiça do Vaticano e condenado a 18 meses de prisão, em 8 de outubro de 2012. O mordomo afirmou que resolvera roubar e divulgar os documentos por julgar que o papa não estava sendo informado do que se passava de errado na Santa Sé. Então, na véspera de Natal, o pontífice octogenário caminhou até o local onde seu antigo assistente pessoal cumpria pena. Sentou-se ao seu lado por quinze minutos e lhe concedeu o perdão. Pessoas próximas dizem que, com esse gesto, Bento XVI sinalizou saber que Gabriele não agia sozinho, era apenas uma peça auxiliar numa rede que desestabilizou seu pontificado.
O cardeal Bertone, um dos personagens do Vatileaks, está presente em quase todos os episódios que levaram ao derradeiro ato de Bento XVI, na segunda-feira 11 – apesar de ser ingênuo pensar que ele é o único ator desse grupo dissidente, que agiu nos bastidores eclesiais para enfraquecer o poder papal. Em 2009, por exemplo, o pontífice alemão nomeou o financista Ettori Gotti Tedeschi, ligado ao movimento conservador Opus Dei, como presidente do Instituto para Obras de Religião (IOR), o Banco do Vaticano. O religioso havia decidido colocar em ordem, definitivamente, as finanças da Santa Sé. Tedeschi bem que tentou. Em 2012, elaborou uma documentação, na qual informava suas descobertas – contas escusas de políticos, construtores e altos funcionários do Estado. Até um chefe da máfia italiana havia colocado seu dinheiro nos cofres do IOR. Não demorou para que o financista de confiança do papa fosse destituído, no mesmo mês em que o mordomo Gabriele foi preso. A operação para derrubá-lo foi comandada por conselheiros do banco, com o aval de Bertone. Não satisfeitos em tirá-lo do cargo, elaboraram um dossiê que destruía Tedeschi pessoal e profissionalmente.
Se a poderosa e intrincada teia de intrigas formada por religiosos de alta patente é a razão para a situação de não governabilidade do 265º pontificado da história da Igreja Católica, a personalidade de Joseph Ratzinger explica a coragem para a renúncia. O maior teólogo da atua­lidade, pensador brilhante, de uma lucidez elogiada até por seus desafetos, o alemão sempre foi conhecido por ser extremamente racional e disciplinado. “Ratzinger é, sobretudo, um intelectual com uma sensibilidade especial para as ideias e a cultura e uma incapacidade e insatisfação para a gestão burocrática. E não é um homem midiático, ainda que se esforce para sê-lo”, afirma o vaticanista espanhol Juan Arias.
04.jpg
Cardeal mais identificado com João Paulo II, o pontífice sempre teve consciên­cia de que foi eleito no calor da comoção da morte do polonês, quando ainda ecoavam os gritos de “Santo Súbito” na Praça de São Pedro. Intimidados, os cardeais votantes no conclave de 2005 preferiram, de alguma forma, manter a administração Wojtyla. Ao se retirar e forçar uma sucessão com o papa vivo, Bento XVI, exclui o componente emocional do luto, eximindo os votantes da continuidade. E ainda pode, como fez em seu discurso de renúncia e na homilia de Cinzas, sugerir pistas de como deveria ser seu substituto – mais novo e com perfil administrador (portanto, menos erudito e introspectivo, como ele próprio). Além de alguém que promova a “renovação verdadeira” na Igreja, algo como um Concílio Vaticano III, como conclamou num encontro com sacerdotes da Diocese de Roma, na quinta-feira 14.
Só um homem em pleno vigor de suas forças poderia tomar uma decisão tão revolucionária e enfrentar acusações como a do cardeal Stanislaw Dziwisz, ex-secretário de João Paulo II, autor da frase “da cruz não se desce” sobre a renúncia. Certamente, ao dizer isso, o cardeal polonês se lembrou de uma entrevista dada por Ratzinger a uma tevê italiana, durante o calvário de João Paulo II, que agonizou diante de seus fiéis. Na ocasião, o então prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé afirmou categoricamente que o papa não podia renunciar. “O Senhor é que dá a alguém a responsabilidade de ser papa. Não foram os cardeais que fizeram dele um papa, mas, sim, uma intervenção divina.” Ao proferir a frase que foi tão replicada nas redes sociais, Dziwisz pode ter pensado por que agora o religioso alemão havia mudado de ideia. Essa foi apenas mais uma censura sofrida ao longo de seu pontificado. Bento XVI foi duramente criticado por muçulmanos, que chegaram a compará-lo a Hitler, por exemplo. Também foi censurado quando associou o uso de camisinha ao vírus HIV na África. E sai de cena criticado pelas associações de vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes, que apesar de reconhecerem que ele ousou tocar na ferida e pedir desculpas publicamente, não o perdoam por não ter conseguido pôr fim aos casos.
A pontuar essa sequência galopante de disputas internas, escândalos e polêmicas está um religioso que já no seu primeiro discurso como papa combateu o que chamou de “ditadura do relativismo” da atualidade, sempre fez questão de deixar claro que prefere poucos, mas bons católicos e defendeu ferrenhamente a tradição, a doutrina e a moral cristãs, sem a mudança de um versículo sequer. Diante dessa política de gestão, a Igreja foi perdendo fiéis, principalmente na Europa e nas Américas. Mas esse, agora, é um desafio para o próximo papa. A voz frágil de Bento XVI, que ecoou como um grito ensurdecedor na Basílica de São Pedro na quarta-feira 13, tamanha a gravidade de seu discurso, já deu o seu recado.

Os homens que vão investigar Lula

Quem são os procuradores federais responsáveis pela apuração das acusações de Marcos Valério contra o ex-presidente

Josie Jerônimo


Pic_Lula.jpg
DUPLA AFIADA
Integrantes do Ministério Público em Minas Gerais, Adailton Nascimento (à dir.) e
José Adércio Sampaio (à esq.) se juntarão a Leonardo Augusto Melo na investigação contra Lula
Desde a quinta-feira 14, o procurador Leonardo Augusto Santos Melo, 36 anos, encontra-se no centro de um furacão político. Caberá a ele, escolhido por sorteio, a tarefa de examinar as seis peças de acusação reunidas pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem prazo definido para desincumbir-se do trabalho, Santos Melo, que está há nove anos no Ministério Público Federal de Minas Gerais, terá a palavra inicial sobre o caso. Pode pedir o indiciamento do presidente pelo crime de tráfico de influência, como admite a documentação de Gurgel. Ou escolher outro caminho, mandando arquivar o processo. Caso decida encerrar o caso, a decisão não será definitiva, pois há a possibilidade de outro procurador pedir que o processo seja reaberto e examinado mais uma vez.
Ainda que o estatuto do Ministério Público garanta autonomia plena a cada procurador, que não obedece a nenhuma hierarquia em seu trabalho, Santos Melo não estará sozinho em sua tarefa. Ele será acompanhado pelo Núcleo do Patrimônio Público e Social do Ministério Público Federal de Minas, composto por quatro procuradores. Um deles é Adailton Ramos do Nascimento, procurador-geral do Estado, que tem poderes para discutir os rumos da investigação e mesmo indicar procuradores para auxiliar no trabalho. Definido pelo deputado Mauro Pestana (PSDB-MG) como um “homem ponderado,” Ramos do Nascimento já foi acusado de engavetar uma investigação sobre tráfico de órgãos, numa iniciativa que terminou por proteger um deputado tucano.
Outro personagem que em breve estará por perto da instituição que vai investigar Lula é o procurador José Adércio Leite Sampaio. Discípulo de Antônio Fernando Souza, autor da denúncia inicial do mensalão, em 2007, Sampaio tornou-se um homem de confiança de Roberto Gurgel. Bem relacionado na política de Minas, sua terra natal, ele recebeu do governador Antonio Anastasia a medalha da Inconfidência, a mais alta condecoração do governo do Estado. Com tanto poder de influência, Sampaio é o nome mais temido pelo círculo de advogados e juristas próximos de Lula e do PT, que enxergam nesta investigação um esforço dos adversários para manter o ex-presidente nas cordas pelos próximos anos.
01.jpg
Formuladas pelo publicitário Marcos Valério, principal operador do mensalão, as denúncias contra o ex-presidente Lula são variadas. O tesoureiro disse, em depoimento oficial, que em 2003 entregou R$ 98 mil a um segurança de Lula, Freud Godoy, para auxiliar no pagamento de despesas da família presidencial. Também afirmou que na mesma época fez uma reunião de três minutos com Lula, no Planalto, onde o presidente deu “OK” aos empréstimos bancários destinados ao PT. “Não posso responder a uma mentira”, reagiu Lula, ao tomar conhecimento das denúncias.
A intimidade de Marcos Valério com o esquema financeiro teoricamente lhe dá condições para dizer o que disse. Por isso, a investigação é necessária – é do interesse público que tudo reste esclarecido. Mas, de outro lado, as circunstâncias são complicadas. Em sete anos de processo, Valério sempre fez silêncio sobre qualquer envolvimento de Lula. Mudou de postura quando já não tinha como se defender num tribunal onde foi condenado a 40 anos de reclusão, sem falar no que pode lhe acontecer no mensalão mineiro. Nesta situação, a delação premiada é a última esperança para Valério livrar-se da cadeia. Caso seja aceito num programa de proteção a testemunhas, contará com proteção do Estado. Ganhará nova identidade e passará a residir anonimamente em local desconhecido. Esse benefício tão grande obriga considerar os dois lados da moeda: tanto a possível veracidade dos fatos que Valério descreve, como o eventual interesse dele em incriminar Lula de qualquer maneira.
A investigação sobre o mais popular político brasileiro ocorre num momento particularmente delicado. O calendário político marca uma nova campanha presidencial, no ano que vem. Em 2013, Roberto Gurgel estará empenhado, ao longo do primeiro semestre, em fazer o sucessor num processo que começa pela indicação de três nomes numa lista tríplice. Embora a influência de Gurgel entre a maioria dos procuradores federais seja reconhecida até pelos adversários, a palavra final pertence à presidenta Dilma Rousseff. Cabe a ela, por lei, indicar o nome do procurador-geral a ser sabatinado pelo Senado. A presidenta pode escolher o mais votado, prática que Lula instituiu e a própria Dilma repetiu ao indicar Gurgel em 2009. Mas ela pode agir como o governador Geraldo Alckmin, que preferiu o segundo colocado em São Paulo. Ou mesmo pinçar um nome que lhe pareça mais indicado, sem ligar para a escolha dos procuradores, como fez FHC com Geraldo Brindeiro, o procurador que entrou para a história como o engavetador da República.

Identificada a ossada de Preto Chaves

Quatro décadas depois da Guerrilha do Araguaia, a comissão que tenta localizar e identificar os corpos dos insurgentes do PCdoB reconhece os restos do guerrilheiro mais misterioso do conflito

Alan Rodrigues

IEpag44a46_Ossada-1.jpg
O ex-marinheiro Francisco Manoel Chaves é o personagem mais misterioso da Guerrilha do Araguaia. Ele viveu quase toda a vida adulta na clandestinidade e morreu, aos 66 anos, emboscado na selva num combate com militares, em 1972. Além disso, quase nada mais se sabia sobre ele, nem sequer seu local de nascimento. Supunha-se que tivesse nascido no Rio de Janeiro, mas recentemente foi confirmado que ele era mineiro. Conhecido por Preto Chaves, mas também chamado de Zé Francisco ou Velho Chico, Francisco Chaves era um dos 163 desaparecidos políticos cuja história ainda está em aberto, segundo estimativas da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República.
As circunstâncias de sua morte e sua trajetória de vida, no entanto, têm tudo para ser elucidadas a partir de agora. Depois de fazer uma série de escavações na região do conflito, especificamente no velho Cemitério de São Geraldo, peritos do Grupo deTrabalho Araguaia (GTA) descobriram três ossadas. Uma delas, que os peritos acreditam ser de um negro, foi identificada como sendo do guerrilheiro Preto Chaves. Como a investigação corre em segredo de Justiça, integrantes da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do governo preferem não anunciar a descoberta oficialmente antes da conclusão do processo. Mas Diva Santana, representante da comissão, admite: “De fato, um dos restos mortais tem muita chance de ser do guerrilheiro Chaves”, disse Diva à ISTOÉ.
01.jpg
ELUCIDAÇÃO
O pesquisador Agildo Nogueira Júnior tem ajudado o governo
com informações sobre a vida de Preto Chaves.

"Ninguém falava sobre ele", diz.
A ossada atribuída a Chaves está em Brasília sob os cuidados do governo federal para análise antropométrica. Não existe até agora nenhum indício de que o militante comunista tenha deixado parentes para reconhecê-lo a partir de exames de DNA, o que poderia facilitar o trabalho. “Precisamos ainda fazer outras análises técnicas do caso, pois não sabemos se ele teve filhos, mulher ou qualquer outro parente”, diz Sávio Andrade, representante do Ministério da Defesa no GTA.
Agildo Nogueira Júnior, pesquisador do Instituto Maurício Grabois, ligado ao PCdoB, é o único estudioso que tem ajudado o GTA com informações sobre a vida de Preto Chaves. Há alguns anos, ele levanta informações sobre o guerrilheiro para a produção de um livro. “Interessei-me pelo caso, já que quase ninguém falava sobre ele. Essa cantilena de que os militares não possuem mais informações tem atrapalhado a pesquisa”, diz Júnior. Agora, com a descoberta da ossada, a apuração do pesquisador pode contribuir para o reconhecimento definitivo do corpo. Ele mostra, por exemplo, uma entrevista publicada no “Jornal Opinião”, de Goiás, na década de 1990, na qual o sargento do Exército identificado como J. Pereira, que combateu no Araguaia, admite que seu grupo matou três guerrilheiros. “Foi tiro pra lá, tiro pra cá. No final, três guerrilheiros estavam mortos”, disse J. Pereira, que ainda está vivo. O sargento fez outras revelações importantes. Ele conta que deixou os corpos dos guerrilheiros no mesmo local em que os restos mortais foram encontrados agora pelo GTA. O sargento revelou também que Preto Chaves carregava no peito um cordão de terecô, um patuá da religião afro cujo “terreiro” era frequentado pelo ex-marinheiro. “Tínhamos informações de que o guerrilheiro negro era considerado feiticeiro”, disse J. Pereira, que se referiu ainda a “uns cordões amarrados” usados pelo guerrilheiro.
02.jpg
COMPANHEIRO
Zezinho combateu na selva ao lado de Preto Chaves no Araguaia.
Ele contou que o ex-guerrilheiro frequentava terreiros de umbanda
A revelação do sargento sobre os cordões de terecô no peito de Chaves coincide com a informação prestada pelo militante Micheas Gomes de Almeida ou “Zezinho do Araguaia” ao pesquisador do Instituto Maurício Grabois. Zezinho, que conheceu e combateu na selva ao lado de Chaves, contou em 2007 que ele frequentava as sessões de umbanda na região do conflito e que carregava o patuá no peito. À ISTOÉ, Zezinho confirmou a participação de guerrilheiros em cultos de religiões afro. “O Chaves participava dos terreiros. Não podíamos destoar do dia a dia dos moradores locais. O João Amazonas (principal líder do PCdoB), por exemplo, puxava um terço danado”, revela Zezinho. De acordo com fontes do GTA, essas informações são preciosas para o reconhecimento oficial do corpo de Preto Chaves. “É muito pouco provável que um guerrilheiro negro, o que era raro, fosse enterrado, naquele mesmo local, com os cordões de terecô sem ser o Chaves”, afirmou um dos integrantes do GTA.
Antes do Araguaia, há algumas informações mais precisas sobre Chaves. Em 1935, ele participou do levante comunista contra o governo de Getúlio Vargas. Preso e torturado, foi trancafiado por meses no presídio da Ilha Grande ao lado de Graciliano Ramos. O escritor faz referência ao marinheiro em seu livro “Memórias do Cárcere”. Na década de 1960, Chaves filiou-se ao PCdoB. A partir daí, sua trajetória é obscura.
03.jpg
O episódio envolvendo Preto Chaves ilustra bem como os órgãos de segurança ainda tratam as informações sobre os ex-militantes comunistas e reforçam as críticas de que os militares têm sido pouco colaborativos. Até outubro do ano passado, a Marinha se recusava a tornar público o prontuário do ex-funcionário e ninguém do GTA tinha nenhuma informação sobre o guerrilheiro. Nem mesmo sua ficha de entrada na Marinha existia (ele entrou para a corporação militar em 1º de julho de 1928). Depois de intensas negociações, apareceu uma tímida folha da Polícia Civil do Distrito Federal que trazia algumas informações sobre Chaves. “É inconcebível que não exista nenhuma informação sobre a história de um ex-militar que serviu durante 33 anos, foi expulso e chegou a receber pensão. A Marinha tem a obrigação de abrir seus arquivos”, defende Júnior.

GDF refaz edital que teve sobrepreço de até 18.400% apontado por tribunal


Gasto previsto com drogas para câncer caiu de R$ 85 mi para R$ 12 mi. Secretaria diz que está apurando se houve falha na condução do processo


A Secretaria de Saúde do Distrito Federal reabriu nesta sexta-feira (15) licitação que reduz em R$ 73 milhões a previsão de gasto com medicamentos usados no tratamento de câncer. O edital inicial, de dezembro, havia sido suspenso pelo Tribunal de Contas do DF por suspeita de superfaturamento. Alguns medicamentos tinham valor até 18.400% acima do de mercado, segundo o tribunal.

Em nota, a secretaria informou ao G1 que “seguiu integralmente as recomendações do Tribunal de Contas e está apurando se houve falha na condução do processo”. Na nota, diz ainda que “não houve qualquer prejuízo ao cidadão – graças ao trabalho conjunto entre poderes" e que “ a estimativa de preço é apenas estimativa. O que realmente vale é o valor final da licitação (menor preço).” ...

A licitação prevê a compra de 44 tipos de medicamentos para distribuição nos hospitais do DF. Ao receber o primeiro edital, os técnicos do tribunal consultaram o ComprasNet, portal de compras do Ministério do Planejamento, para comparar valores pagos pelos mesmos produtos por outros órgãos da administração pública.

Um dos itens que chamou a atenção dos auditores foi a Oxaliplatina, usada em tratamento de quimioterapia. O valor estimado pela Secretaria da Saúde era de R$ 3.390 a dose no primeiro edital. Quando os técnicos fizeram a pesquisa de preço, encontraram o mesmo medicamento por R$ 34,80 em uma ata de registro de preços no Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense, com validade até setembro deste ano.

No Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, o preço encontrado foi menor ainda: R$ 28,50 a dose, com validade até março de 2013. Depois da recomendação do Tribunal de Contas, a Secretaria da Saúde do DF reduziu o valor da dose para R$ 45,01 – valor ainda assim 57,9% maior que o pago pela universidade mineira.

A maior distorção foi encontrada em um medicamento que estava com sobrepreço de 18.420%, segundo os auditores do tribunal. O valor inicial na primeira licitação era R$ 3.776,02 a dose, mas, de acordo com a tabela do ComprasNet, o mesmo medicamento custava R$ 20,50. O tribunal não revelou o nome do medicamento.

"A previsão do custo da licitação estava muito acima do praticado no mercado”, disse Renato Rainha, relator do processo no Tribunal de Contas. Com as alterações nos preços, o valor final do edital ficou em R$ 12,6 milhões.  "Acompanhamos o processo da licitação e estamos de olho para ver se os preços anunciados continuam certos", disse Rainha.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIJOLO SOLIDÁRIO: A solução socioeconômica que a Estrutural precisa Por Eugenio Piedade - 31 de janeiro de 20190 Compartilhar Tweetar TIJOLO SOLIDÁRIO: A solução socioeconômica que a Estrutural precisa .

Verba de outros setores será redirecionada para recuperar Hospital de Base

Delúbio Soares e Jacinto Lamas deixam prisão para primeiro dia de trabalho