O futuro


O futuro


Meu pai fez parte de um grupo de sonhadores, na década cinquenta, século passado, que imaginavam poder viver em um país melhor, mais desenvolvido e organizado. Ele se transferiu para Brasília em 1958 e como advogado que era fez os primeiros contratos de aquisição de terrenos – chamados aqui de projeções – com objetivo de construir prédios destinados aos funcionários públicos. Além de estar presente na inauguração de Brasília, integrei a mudança da família para a capital em setembro de 1960. ...

O Brasil mudou tanto nas últimas décadas que é difícil explicar o que havia antes. O país era essencialmente agrário, a grande exportação era de café. Não existiam indústrias ou elas tinham dimensão muito pequena. Também não existiam estradas asfaltadas significativas, com exceção da Rio-São Paulo. O centro-oeste era distante e de difícil acesso. Goiânia constituía uma pequena cidade perdida no meio do cerrado. O Brasil do sul se comunicava com o do norte e do nordeste por intermédio da navegação de cabotagem.

Paciência
Telecomunicação era miragem. Ligar do Rio de Janeiro para Petrópolis exigia muita paciência. O usuário ligava para 101, pedia para realizar a conexão e esperava que a telefonista chamasse de volta para completar a ligação. Isso podia demorar algumas horas. Petrópolis fica a 80 quilômetros do Rio. As roupas eram simples. Quem podia, comprava calças jeans. Não existiam as nacionais. Os automóveis, poucos, eram importados. A maioria deles produzida antes da guerra, porque a produção de veículos civis demorou a ser retomada depois de encerrado o conflito. Rodavam no Brasil caminhões e carros velhos que não dispunham de peças de reposição. Tudo era improviso. O carburador de uma marca poderia ser adaptado em outro veículo. Freios também. E assim a vida caminhava, sem maiores expectativas.

Os principais acontecimentos ainda frescos na memória popular eram a derrota para o Uruguai na Copa de 50 e o suicídio de Getúlio Vargas em agosto de 1954.

A política dependia muito do que acontecia no Rio. Greve de estudantes paralisava o sistema de bondes – os estudantes se deitavam nos trilhos e provocavam problemas nacionais. As disputas entre os udenistas e os trabalhistas resultavam em crises. Ocorreram vários golpes ou tentativas de golpe no período. Aí apareceu Juscelino Kubitschek com suas ideias diferentes de um governo com metas estipuladas e a síntese delas que contemplava a mudança da capital para o planalto central do País. A proposta de construção de Brasília incendiou o debate político nacional. Naturalmente, a maioria dos cariocas era contra o projeto. Os jornais massacravam JK dia após dia. E a maioria apostava que ele não conseguiria realizar suas metas, muito menos transferir a capital federal. Poucos acreditavam que brasileiros tivessem a capacidade de produzir automóveis. Os primeiros fuscas (e Kombis) sofreram com o descrédito dos consumidores. Com o tempo, o despeito em relação ao produto nacional foi vencido, mesmo porque, com exceção dos mais ricos, poucos tinham condição de adquirir carro zero quilômetro no Brasil.

MODERNIDADE
Tudo aconteceu de maneira muito rápida. O Brasil ganhou a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Revelou ao mundo dois gênios do futebol: Garrincha e Pelé. Tom, Vinicius e o pessoal da bossa nova surgiram no horizonte musical. O ambiente cultural foi oxigenado. Acabou a época do bolero. A viagem até Nova Iorque ganhou um glamour fantástico. E passou a ser realizada em pouco mais de oito horas.

A Petrobras começou a dar sinais de que trabalhava de verdade. O FMI se manifestou contra os projetos de JK o que reforçou ainda mais sua posição interna. A transferência da capital passou a resumir tudo o que o governo estava realizando. Foi aberta a estrada do Rio para Belo Horizonte. E dali a Brasília. A outra até Belém foi a primeira ligação terrestre do sul o norte. Desde a descoberta do Brasil as regiões viviam quase como se fossem países diferentes. Ocorreu uma revolução dentro do país. Foram os cinquenta anos em cinco. Ser a favor da construção de Brasília era o desafio aos conservadores da época.

Vale a pena lembrar essa história quando Brasília completa 53 anos. A luta pela transferência da Capital já não empolga ninguém. A rápida e profunda mudança ocorrida em todo o centro-oeste só impressiona quem não conhece a região. A pequena Goiânia da época hoje é uma cidade grande e moderna. Assim como os dois Matos Grosso e seus intermináveis campos de soja. Até o Acre e Rondônia se integraram à economia nacional. Brasília abriu os caminhos para o oeste e os brasileiros descobriram a potencialidade de seu país.

Brasília significa tudo isso a um só tempo. JK descobriu em Oscar Niemeyer e Lúcio Costa gênios da arquitetura e do urbanismo. E a nova cidade também se projetou como símbolo que havia de mais arrojado na época. No entanto, 53 anos depois caminha para ser apenas mais uma cidade brasileira. Possui os vícios e as virtudes das grandes capitais do país. A vanguarda hoje, na falta de melhores opções, se restringe ao comportamento do indivíduo. A discussão política foi dissolvida entre mais de trinta partidos que se preocupam em ocupar algum espaço e vender seu tempo na televisão. O governante trabalha apenas para compor interesses. Os objetivos anunciados não são atingidos e fica tudo por isso mesmo. O país do futuro descobriu o futuro e nele se acomodou.
 
Por André Gustavo Stumpf

Fonte: Jornal de Brasília - 21/04/2013

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