Eleições 2014, burocracia e corrupção
Essa semana estourou mais um escândalo em Brasilia
A Operação Átrio envolve as administrações regionais de Taguatinga e de Águas Claras com empresários do setor de construção civil.
Agentes públicos são suspeitos de violar normas em construções. Em
contrapartida, recebiam propinas. O nome disso: corrupção passiva. ...
Os empresários estariam pagando propinas para que as obras de imóveis
construídos fossem legalizadas mais rapidamente, recebendo as
autorizações e alvarás. Essa é a corrupção ativa.
Os investigados ainda são acusados de associação criminosa e falsidade ideológica.
O mais ingenuo integrante do Ministério Público
ou da Polícia Civil sabe que essa prática acontece em muitas
administrações regionais. E não apenas no atual governo. Sempre foi
assim. Cria-se dificuldades para oferecer facilidades.
A operação não fica apenas na esfera da polícia ou do Ministério
Público. Ela tem foco nas eleições de 2014. Curiosamente,
coincidentemente ou estrategicamente, dois nomes de peso foram
envolvidos – direta ou indiretamente.
O ex-senador Paulo Octávio (PP) e o senador Gim Argello (PTB) saíram desgastados. PO retornou recentemente a cena política. Se filiou ao PP, aderiu a base do governo Agnelo e ensaia uma candidatura para 2014. Ele tem uma construção – o JK Shopping – citada nas investigações.
Gim é candidato à reeleição e presidente de um importante partido. Pode
integrar tanto a chapa do governador Agnelo como aderir ao bloco de
oposição. Ele é padrinho do administrador de Taguatinga, que teve a
prisão decretada.
Em setembro foi a operação Elementar. Ou Mequeias. Tirou de circulação
uma quadrilha especializada em lavagem de dinheiro, com origem em crimes
como desvio de dinheiro público, corrupção, peculato e tráfico de
droga. E comercialização de veículos de luxo.
A operação também serviu para encurralar um outro candidato ao GDF. No
final das contas, quem queria debandar, ficou. Não se sabe se o
resultado político da Atrio vai dar certo. Se vai conseguir abortar as
candidaturas de PO e Gim. E onde eles podem se posicionar. Se no governo
ou na oposição.
O certo é que o desgaste político está feito. O vale tudo para ganhar a
eleição está apenas começando. Policiais e promotores de justiça fazem o
seu trabalho. As vezes por obrigação. Outras por ordem direta. O fato é
que todos os setores estão contaminados com a disputa eleitoral.
A Operação Atrio é o obvio ululante. A burocracia é um convite à
corrupção. No caso das construtoras, aguardar todas as autorizações
necessárias para poder construir um imóvel faz com que o processo seja
caro demais.
Tempo é dinheiro. A falta de um processo claro, rápido e objetivo de
autorização faz com que o custo do bem parado seja tão alto que pode até
inviabilizar o negócio. Portanto, se não houvesse corrupção, muitos
negócios legítimos simplesmente não sairiam do papel.
E isso é um problema. Pessoas ligadas ao governo acabam recebendo
recursos de maneira ilegítima apenas por deterem o poder de impedir
pessoas de negociar livremente. E o empreendedor acaba tendo de fazer
uma escolha de Sofia: ou perde dinheiro aguardando os intermináveis
trâmites legais, ou perde dinheiro subornando o fiscal. No final, a
segunda opção acaba sendo economicamente mais viável, às custas da
moralidade pública.
Isso é ruim para o prestador do serviço e pior ainda para o consumidor,
que acabará por comprar um imóvel por um preço maior porque nele estará
embutido ou o preço da espera burocrática regular, ou o preço da
propina paga. E os corruptos se esbaldam na burocracia.
No início do ano o Jornal da Comunidade publicou uma reportagem
especial sobre o tema. Mostrou a ineficiência administrativa,
incompetência burocrática e desconfiança entre os gestores públicos.
Soma-se a isso a falta de incentivos públicos. Uma combinação que não
tem como dar certo. E não deu. Esse é o retrato do setor produtivo do
DF.
A construção civil é a área que mais sofre. O setor era, há quatro anos, o 2º mercado brasileiro. Hoje está em quinto.
O mercado funciona assim: a Terracap vende a projeção através de
licitação pública. A construtora vencedora faz o projeto arquitetônico
e, após receber a aprovação e o licenciamento do governo, começa a
construir o empreendimento.
Antes, esse processo demorava de quatro a seis meses. Hoje, a média é
de 20 meses. Não tem empresário que aguente ficar esse tempo todo parado
pela burocracia. Se não constrói, não contrata empregados e nem negocia
com fornecedores. A economia não gira.
Se a máquina funcionasse, o corrupto sairia de cena. Não haveria retração no mercado. Nem ganho político-eleitoral em operação policiais.
É fácil entender como funciona a Operação Átrio. O mercado de
construção civil comenta há anos a existência da prática de cobrança de
propina. Em todas as administrações regionais. O que está difícil de
assimilar é por que Taguatinga e Águas Claras? Parecem escolhidas a
dedo.
Para alguns, uma operação policial. Para outros, ação política
desenhada. Que sirva de alerta para outros políticos que pretendem
disputar as eleições de 2014.
Fonte: Blog do Callado - 09/11/2013
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