Justiça chega aos homens do propinoduto
Agentes públicos denunciados por IstoÉ têm bens bloqueados e Ministério Público confirma o pagamento de propina
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O esquema de superfaturamento de licitações no Metrô paulista e na
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) durante os sucessivos
governos tucanos à frente do Estado de São Paulo
tornou-se oficialmente um caso de Justiça. Em decisão proferida na
quinta-feira 7, o juiz criminal Marcelo Costenaro Cavali atendeu a um
pedido do Ministério Público Federal
e da Polícia Federal e decretou o bloqueio de aproximadamente R$ 60
milhões em bens e contas bancárias de cinco pessoas e três empresas
relacionadas com o cartel da área de transportes sobre trilhos. A
tramoia causou prejuízo de ao menos R$ 425 milhões aos cofres públicos
paulistas. Além da filha de um dos envolvidos, entre os alvos constam o
lobista Arthur Teixeira e três ex-executivos da CPTM: Ademir Venâncio de
Araújo, João Roberto Zaniboni e Oliver Hossepian Salles de Lima. Para o
Judiciário, há elementos contundentes que revelam que, em troca de
suborno, eles usaram de suas atribuições para beneficiar empresas
interessadas em contratos públicos. O esquema foi denunciado com
exclusividade por ISTOÉ em julho passado. Desde então, 19 reportagens
esmiuçaram o funcionamento do propinoduto tucano, que se perpetuou pelas
gestões dos governadores Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra. Em
uma das reportagens de capa, sob o título “Todos os homens do
propinoduto tucano”, ISTOÉ revelou em primeira mão o envolvimento de
Ademir Venâncio – que agora está com os bens bloequeados – no esquema.
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PROPINODUTO TUCANO Juiz indica que houve pagamento de propinas a agentes públicos nos contratos da CPTM e do Metrô paulista |
Pessoas ligadas à investigação dizem que a lista de beneficiários da
fraude crescerá nas próximas semanas com a realização de novos
depoimentos e cruzamentos de dados. O bloqueio de bens, porém, já serviu
para avançar sobre a peça-chave do esquema: o lobista Arthur Teixeira.
Investigado também pelo MP da Suíça pelos crimes de corrupção
internacional e lavagem de dinheiro, ele é considerado o principal
operador do propinoduto. Em seu despacho, o juiz Marcelo Cavali disse
que Arthur e seu irmão, Sérgio Teixeira (morto em 2011), recebiam
comissões de acordo com os pagamentos feitos pela CPTM às empresas do
cartel e repassavam, via doleiros, parte das quantias a agentes públicos
“e, eventualmente, a outras pessoas ainda não identificadas”. Para isso
contavam com empresas de consultoria de fachada no País e no Exterior,
como as offshores uruguaias Gantown e Lareway e as brasileiras Constech e
Procint, que tiveram os seus bens bloqueados. Praticamente todas as
companhias do cartel recorreram aos serviços dos irmãos. Não à toa, em
sua decisão o juiz ressalta o papel das firmas de Teixeira. “Sobre
quaisquer valores recebidos por empresas de titularidade de funcionários
públicos responsáveis pelos processos licitatórios relacionados ao
Metrô de São Paulo, repassados pela Procint e Constech, paira uma
elevada suspeita de proveniência ilícita”, afirma Cavali. No entanto,
mais do que um mero intermediário de dinheiro, a denúncia da PF e do MPF
mostra que Arthur Teixeira tinha voz ativa no esquema de corrupção. Ele
alertava as companhias sobre novos projetos a serem licitados e
organizava até a forma como elas participariam da disputa.
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AGENTE DUPLO Ex-diretor da CPTM, Ademir Venâncio repassava informações da estatal ao carte |
Outro alvo do bloqueio judicial de bens foi Ademir Venâncio de Araújo,
ex-diretor de engenharia e obras da CPTM. Conforme denúncia feita por
ISTOÉ, publicada a partir do relato de um ex-executivo do conglomerado
alemão Siemens, ele mantinha encontros regulares em casas noturnas com
dirigentes das companhias do cartel. Lá, fornecia informações internas
sobre licitações e acertava como as empresas iriam se associar para
conquistar contratos com as empresas públicas. Foi assim no caso da
Linha 5 do metrô paulista, antiga Linha G da CPTM. A obra é alvo de
investigação por superfaturamento. Chama a atenção das autoridades o
fato de, logo após deixar o cargo na CPTM, Araújo ter aberto uma empresa
de consultoria: a Focco Tecnologia e Engenharia, que recebeu cerca de
R$ 2 milhões da francesa Alstom, uma das principais beneficiadas no
contrato da Linha 5. “Seriam correspondentes ao pagamento de propinas.
Determino o sequestro de montante”, diz o pedido judicial. Na decisão, o
juiz chega a questionar o fato de o ex-executivo prestar consultoria a
uma empresa que venceu processo licitatório realizado por ele. “É como
se este magistrado, depois de absolver determinados réus, após se
exonerar ou aposentar, passasse, logo em seguida, a receber valores por
lhes prestar consultoria em outros feitos criminais”, salienta o juiz,
que também bloqueou bens da empresa de Venâncio.
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O HOMEM-CHAVE Além de intermediar o pagamento de propina, o lobista Arthur Teixeira organizava a formação do cartel |
Ex-sócio de Ademir Venâncio na Focco, João Roberto Zaniboni foi
igualmente alvo da medida judicial. Diretor de operações da CPTM entre
1999 e 2003 (gestões Mário Covas e Geraldo Alckmin), Zaniboni é
investigado também na Suíça. Uma conta chamada de “Milmar” no Credit
Suisse foi abastecida com US$ 836 mil, o equivalente a R$ 1,8 milhão,
durante o período em que ele trabalhou na estatal paulista e assinou o
contrato da Linha 5 do Metrô de São Paulo. Somente em um depósito,
efetuado em 27 de abril de 2000, Zaniboni recebeu US$ 103,5 mil do
lobista Arthur Teixeira, valor que teria como origem o caixa da francesa
Alstom. Para as autoridades brasileiras, Zaniboni cometeu crimes de
corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Também foram
registrados pagamentos de outras empresas do cartel diretamente a ele
ou a empresas em que era sócio, como a Getran Consultoria. Nela, dividia
o quadro societário com Oliver Hossepian Salles de Lima. Presidente da
CPTM entre 1999 e 2003, Oliver Hossepian foi alvo de bloqueio de bens
pelo fato de a Getran Consultoria ter recebido valores das empresas do
lobista Arthur Teixeira, o que caracterizaria “vantagens indevidas
recebidas em razão do mau uso da função pública”.
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BENEFICIÁRIO Ex-presidente da CPTM, Oliver Hossepian teve bens bloqueados por receber dinheiro de lobista |
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Fonte: Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Sérgio Pardellas - Revista ISTOÉ - N° Edição: 2295 - 09/11/2013
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